Interlúdio

Breve interlúdio para divagações desimportantes

lendo

Às vezes me pego pensando o que quero com esse blog, o que quero com meus quadrinhos, com as coisas que faço. E fico pensando na leitura, atitude ao mesmo tempo tão e tão pouco solitária. Pois há algum tipo de comunicação estranha entre o leitor e a obra, não digo o autor, que são coisas diferentes. Não sou daqueles que acham que a leitura é uma ação passiva. Ela demanda uma abertura, um se soltar para um algo outro, uma certa intersubjetividade recriada a cada nova leitura, por cada novo leitor. Quando releio as coisas que faço, em geral não gosto, são as minhas falhas, minhas dificuldades, o que queria mas não atingi que me salta aos olhos. Me arrependo sobretudo dos riscos não corridos, do medo do ridículo que não obstante volta sempre outra e outra vez mais. Não consigo bem ao certo imaginar a reação de um leitor, se o há, às minhas coisinhas. Por muito tempo vi a arte em geral sob o prisma de uma responsabilidade social, como um lugar privilegiado de algo como uma crítica transformadora. Pois esse mundo besta é tão, mas tão errado, que não há senão uma urgência no grito. Continuo a acreditar nisso, mas de forma diferente. Esse grito não pode ser ele também uma forma de opressão, uma imposição. É preciso uma abertura também do criador, dar espaço ao espectador, é preciso que seja ele também criador, pois o é mesmo à revelia do autor. É preciso uma certa generosidade ao criar, o que muitas vezes me falta. É preciso aceitar a vida própria da obra e a síntese do leitor, só dele. Quando penso nas leituras que fiz e me são queridas, é uma certa imprevisibilidade que me encanta, uma resposta espontânea que se insinua um pouco malandramente. São as divagações que se depreendem e que vão pra outras paragens não pretendidas pelo autor, mas sobretudo um sorriso de canto de boca, uma ansiedade pelo desenrolar, uma apreensão, às vezes uma risada incontida. Não há nada de passivo nisso tudo. É isso que espero conseguir algum dia, ter a esperança de que em algum lugar, sabe deus aonde, alguém leia algo meu e dê ao menos um sorriso, ainda que tímido.

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Sobre Vitor

Vitor Flynn, 30 e poucos anos. faz quadrinhos, ilustração, projeto gráfico, um tantinho assim de animação e um café joia.
Esse post foi publicado em divagações e marcado . Guardar link permanente.

2 respostas para Interlúdio

  1. gabrielle disse:

    🙂

  2. pedro disse:

    Muito bacana camarada, gostei do blog e do texto. parabéns

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